A Polícia Militar está na USP, depois de alguns episódios de violência dentro do Campus, divulgados incansavelmente pela mídia da TV aberta, a reitoria da Faculdade resolveu permitir a presença da PM dentro do espaço da Universidade. Surge então o questionamento: você é contra ou a favor à PM dentro da USP? Resisti muito a me posicionar sobre o assunto, mas quando não aguentava mais resolvi escrever este desabafo.
Fui adolescente numa época em que questionar era perigoso, lembro-me quando aos doze anos perguntei ao meu professor de história o que era Comunismo e ele preocupado olhando para a porta respondeu-me: “Imagine que uma pessoa segura a arma e a outra esta na sua mira. Qual delas você escolhe ser?” Acho que demorei mais uns seis anos para entender a metáfora proposta pelo meu professor.
Participei da campanha para Eleições Diretas para Presidência, DIRETAS JÁ! Ah saudades... Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, em cima de um pequeno caixote de madeira falando a um pequeno público sobre dias sem inflação, uma moeda fixa por mais de um ano, sem a necessidade de serem retirados os três zeros!?!? Será que meus leitores estão entendendo o que escrevo?? Talvez apenas os mais velhos.
Voltando ao ponto sem perder-se em divagações, pertinentes e necessárias, mas divagações. O que eu vejo agora é uma democratização que foi plantada pela minha geração, mas infelizmente o jovem de hoje apenas recebeu o dote, sem saber como ele realmente foi ganho. Liberdade demais sem a mínima criticidade. A mídia televisiva domina as mentes com entretenimentos fúteis, pouco ensinamos aos nossos jovens questionamentos. Vivemos a sociedade do TER, deixando a segundo plano o SER. Você vale pelo carro que dirige, pela marca da roupa que usa, pelo preço e multiplicidade de funções do seu celular, nunca ninguém questiona quantos livros leu, seu filósofo favorito, ações políticas para melhorarem a sociedade, entre outras.
Eu não sou a favor nem contra a PM estar dentro da USP, mas me preocupa ouvir o público jovem de classe baixa repetindo as palavras dos noticiários da TV aberta que diz “A PM tem que ficar dentro da USP mesmo, os alunos que são contrários, é porque querem usar drogas dentro da faculdade”.
A droga é um mal que aflige todas as classes sociais, ricos e pobres, até filhos de apresentadores de TV, até mesmo os próprios apresentadores estão vulneráveis a este mal. Não é o lugar, nem a pessoa que traz o problema, mas o medo de enfrentá-lo que o torna assustador ou não. Famílias que não tocam no assunto por acreditarem que isso só acontece na casa do vizinho, e pouco se importam com esse vizinho.
A Universidade de São Paulo não recebe apenas os jovens ricos, recebe os melhores, os mais bem preparados, aqueles que lutaram e almejaram estarem lá um dia para fazerem parte de uma comunidade pensante ativa e questionadora, capaz de transformar a realidade de uma sociedade. Mas essa afirmação também é questionadora, quem são esses “melhores”, aqueles que as famílias investiram de alguma forma em suas formações visando um futuro promissor. E para isso, se faz necessário à exclusão de muitos. Certo? Errado? Não sei. Só sei que a escola para todos não funciona, não forma cidadãos críticos, capazes de traçarem seus objetivos e realiza-los, mas acredito que a família tem esse poder.
Precisamos ter a consciência de que existe um poder oculto que oprime as massas, enganando-as, dando pão e circo, para que os principais lugares deste espetáculo possa ser ocupado pelos “melhores”.
Qual lugar você quer ocupar? Quer ganhar o pão e circo, digerindo tudo que a mídia rumina em cima de uma mente não pensante, mídia esta que também está sendo manipulada por forças que não querem mudar o que já foi estabelecido. Ou quer fazer parte daquele grupo de baderneiros que questiona, acampa, faz protesto, está no topo do saber científico e por isso podem incomodar algo grande. A decisão é individual, mas antes de absolver ou condenar há que se esvaziar de preconceitos, traumas e frases feitas que foram interiorizadas ao longo da vida.
Desta forma, sob o meu ponto de vista, o importante não é ter uma opinião formada, mas sim o questionamento que leva ao entendimento de inteligências que ainda não conseguimos adquirir. Metaforicamente o homem veio do pó, transformado em barro, moldado por Deus e recebedor do sopro da vida, mas faz-se necessário o fogo das lutas diárias para transformar essa simples escultura de barro em uma fina cerâmica, única e preciosa.
Tornar-se uma escultura singular ou um jarro de barro é escolha individual e intransferível. Questionar as normas pré-estabelecidas, ou encher-se com a moral de outros e repetir chavões, também. Empatia é fundamental em nossa sociedade, mais vale uma amizade verdadeira do que o valor do seu automóvel. Você é aquilo que carrega por dentro e não por fora.
Parabéns aos jovens desbravadores que questionam o poder, opõem-se a ele e lutam por conquistas melhores, usando como arma o pensamento reflexivo e a argumentação. Esses tenho certeza que saberão dizer não às drogas, à violência, à pobreza e com certeza construirão uma sociedade mais justa, igualitária e pensante.
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